Domingo, 5 de Dezembro de 2004

É UMA CASA. MAS SÓ FALTA FALAR

Cérebro ela tem - a central de computador que controla mais de uma centena de dispositivos

ESTANISLAU DE FREITAS

Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada." Ao contrário da casa cantada por Vinícius de Moraes e Toquinho, esta de certo modo pode ser engraçada, porém é grande, bonita, imponente, tem cinco suítes, home theatre, churrasqueira, piscina, garagem para quatro carros. E quilômetros de fios passando sob o piso e através das paredes, sensores eletrônicos, câmeras, dispositivos de acionamento eletromecânico e um cérebro. Isso, um cérebro, uma central de computador que controla mais de uma centena de dispositivos elétricos.

Por fora, é mais uma casa imponente em uma área nobre da Grande São Paulo, Tamboré. Por dentro, é um modelo de casa inteligente, onde a piscina é autolimpante, a caixa d'água avisa quando está ficando vazia, sensores de movimento alertam sobre a presença de estranhos e até um anemômetro (aparelho que mede a velocidade do vento) aciona o fechamento das persianas ao prever chuvas.

"Ter apenas um controle remoto de portões ou do aquecimento, por exemplo, não significa ser uma casa inteligente", explica o engenheiro Reiner von Wallwitz, da Home Control, subsidiária da dinamarquesa LK do Grupo Schneider Electric do Brasil, empresa responsável pela automação da casa, construída pela Job Engenharia.

Segundo Wallwitz, a casa inteligente é "um conceito que visa à integração de todos os elementos elétricos ali instalados".

"Assim projetamos de início todos os quadros de força e os eletrodutos que levarão o cabeamento por toda a casa", explica o arquiteto, que está trabalhando em mais dois projetos de casas inteligentes.

Em linhas gerais, com a casa ainda na planta, o dono encomenda o grau de automação. Todo o cabeamento é feito com as instalações elétricas, durante a construção, e ligado a uma central de computador. Com a central lógica instalada, a Home Control altera apenas os programas de acordo com os pedidos do cliente e indica periféricos compatíveis com o sistema: som, câmeras, DVD, chuveiros, banheiras, piscina...

Nesta casa, câmeras foram instaladas nas áreas externas e nas salas e corredores internos. O dono pode pela internet, de qualquer lugar do mundo, dar uma espiada em sua casa. Além disso, foram ligados sensores de presença, que disparam um alarme ou acionam a vigilância do condomínio ou a polícia em caso de invasão.

É possível também criar o que os técnicos chamam de cenário de chegada. Ainda do escritório, por telefone ou internet, pode-se ligar o aquecimento do piso, o ar condicionado, a banheira, deixar um filme no ponto e estourar pipocas no microondas.

A casa tem caixas de som embutidas em todos os ambientes. Pode-se acionar um CD ou o rádio e escolher o ambiente que vai receber a música. Na beira da piscina, caixas acústicas ficam em suportes impermeáveis no formato de pedras. Todos os 140 circuitos de luz da casa, com até três pontos cada, também estão ligados ao computador. Para economia de energia, há um sensor que habilita circuitos escolhidos pelo dono. No jardim e na piscina, por exemplo, as luzes só acendem no início da noite. Quando amanhece, o computador as desliga. A irrigação da grama também é controlada, há aspersores embutidos na terra acionados pelo computador. Além disso, a piscina tem um sistema de corrente de água no fundo para limpeza, uma fonte luminosa e uma ducha.

Além do painel na área externa, do telefone e da internet, a casa dispõe ainda de um pequeno painel de cristal líquido (menor que a tela de um laptop), embutido na parede, no qual é possível acionar toda casa só com toques na tela. Será que as portas estão trancadas? Alguém tocou a campainha? O controle checa e fecha todas as portas, que têm fechaduras eletromagnéticas e ainda pára o filme e projeta na tela a imagem da pessoa à porta captada pela câmera da entrada.

A casa inteligente é protegida dos surtos cibernéticos: todos os periféricos podem ser ligados manualmente. Se faltar energia, o projeto já prevê um gerador auxiliar. Com esse pacote já é possível controlar, por exemplo, toda a área externa: irrigação, iluminação, piscina, toldos, caixas de som, câmeras e portões.

No Brasil, ainda não existem casas que respondem a comandos de voz, mas a tecnologia já existe nos EUA e na Europa. Talvez, em pouco tempo, os controles remotos sejam aposentados.

Fonte: O ESTADO DE S. PAULO
/ Suplemento CASA & PROJETO